Editar ou Não Editar?

Recentemente ao planear uma foto que servirá de base a um futuro artigo, decidi incluir o meu filho mais velho no papel de fotógrafo (já que a mim cabe o de modelo…). Ao explicar a ideia e o conceito obtive como resposta: “Mas isso não é falsificar?” Esta genuína reacção levou a uma conversa construtiva sobre se é correcto editar ou não uma fotografia. Já agora, em causa está a ideia de criar uma imagem em estúdio e depois passá-la para uma composição diferente de forma a contar uma história.

Mas voltando à velha questão, sim velha porque é das perguntas que mais debate traz para cima da mesa e que mais consequências tem acarretado, muitas vezes não muito positivas, para os autores das fotos em questão. Será correcto ou não editar/alterar uma imagem? Existem quer situações quer fotógrafos de ambos os lados da barricada. Mas todo o debate que é gerado faz perder muitas vezes o que realmente importa. É que editar ou não uma imagem (independentemente do grau) não é a verdadeira questão. O que é realmente importante é se estamos deliberadamente a “falsificar” uma fotografia com o intuito de enganar/adulterar a realidade.

Editar sempre se editou num nível ou noutro. Mesmo antes da era digital a edição de imagens sempre esteve presente, fosse na escolha de um filtro ou filme com determinadas características ou em laboratório, a edição sempre acompanhou a evolução da fotografia. Com o surgimento dos computadores essa edição passou a outro nível mas enganem-se se pensam que foi preciso esperar pelo ano de 1988 para os irmãos Knoll lançarem comercialmente o Photoshop 1.0. Muito antes já se faziam “maravilhas” em tratamento de imagem. Assistam a este video.

A realidade digital dos dias de hoje vai para além deste tipo de edição e passou-se facilmente a mostrar o que não existe. Do outro lado está a edição tradicional em laboratório da qual mesmo os grandes mestres fazem uso nas suas fotografias. Aqui e ali vão surgindo exemplos dessa realidade como o seguinte link é prova disso.

Marked Up Photographs Show How Iconic Prints Were Edited in the Darkroom


Paralelamente descobrem-se casos de fotos que foram alteradas sem que o público soubesse disso ou fosse informado. Não que houvesse verdadeira intenção de esconder esse facto (embora tal também aconteça), mas essa realidade deixa-nos muitas vezes sem defesas. Pode ser porque acreditarmos fielmente no que nos mostram, porque nunca imaginávamos que fotógrafo A ou B o fizesse ou porque criamos uma imagem dum artista ou trabalho que nem sempre corresponde à realidade. A verdade é que somos apanhados de surpresa. O caso mais recente e badalado é o da famosa rapariga afegã (capa da National Geographic). Podem saber mais no seguinte link:

Eyes of the Afghan Girl: A Critical Take on the ‘Steve McCurry Scandal’


Pessoalmente nunca tive problemas com a edição em menor ou maior escala. Aliás, fazendo uso constante de ficheiros RAW, sou “obrigado” a editar as minhas imagens em algum grau. No entanto, e tendo por base a minha formação, sempre defendi que devemos conseguir realizar a fotografia que idealizamos no momento do disparo. Exemplo disso são as duas fotos seguintes (a primeira que sofreu apenas uma simples conversão a preto e branco, e a segunda que foi ajustada nos valores de brilho e saturação) cujos “efeitos” foram conseguidos no momento do click:

Sou declaradamente contra o “depois corrijo no Photoshop” mas completamente a favor da liberdade artística que estas e outras ferramentas nos permitem. Em consciência devemos é ser verdadeiros e da questão “Devo ou não editar esta imagem” passar a perguntar “Que mensagem quero eu passar com esta foto?” Entre ser falso e ser criativo há uma enorme diferença e compete a cada fotógrafo/artista decidir onde termina uma e começa outra. O que acham desta questão? É algo pertinente e que molda o vosso trabalho e postura perante a fotografia?
A foto de introdução deste artigo foi editada em grande medida pela “revelação” digital a preto e branco e em particular pelos diversos ajustes localizados. Será que altera a realidade?…

 

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